quinta-feira, 4 de junho de 2009

Palavras do amor


Do encontro, um ardor

Do toque, a flor

Do adeus, o dissabor

Mal de amor, uma dó.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O X da questão


Antes que perguntem, não é por falta de educação. Tampouco um cacoete feio do qual não consiga se livrar. Muito mais uma necessidade adesiva de manter a energia em alerta em dias de sobrepeso mental. Como se precisasse de alguma liga para os pensamentos se engrenarem em um arranjo ainda desconhecido. Por isso mascava. Como se o esforço inerte e ruminante de manter o chiclete na boca tornasse menos penosa a tarefa de trazer para si aquelas nuvens de idéias desconexas pairando no ar.

Dia de prova...enquanto Mosquito, seu melhor amigo, lidava com as artimanhas que envolviam uma cola eficaz e os demais se garantiam apenas com o conteúdo repassado até altas horas da madrugada, Pedroca, nem bom aluno, nem mau, mas quase, organizava os chicletes por ordem de sabores. Os mais adocicados primeiro para estimular o cérebro no enfrentamento das questões exatas. Os mais ardidinhos o ajudariam a encontrar um adjetivo forte na prova de redação.

Abriu o caderno de prova e cumprindo o protocolo, inteirou-se das intenções contidas no enunciado. È baba! pensou. Um resmungo vindo de Mosquito avisou-lhe de que o contato da saliva com o chiclete estava em um nível auditivo ligeiramente mais que moderado. Quando chegasse à esfera do insuportável Mosquito o chutaria na cabeça provavelmente. Prendeu a goma sobre a língua, fazendo com que o paladar reconhecesse os resíduos do doce. Inclinou-se sobre a cadeira. As mãos intermitentes esfregavam-lhe a testa para, num átimo, se voltarem indecisas para o lápis e o papel.

A questão está dada, mas, ainda assim tem aquela tensão criativa do que se pode incrementar. Os estalidos do chiclete na boca aumentam ante a iminência de ter de salvar a resposta de um termo inadequado. Enquanto isso, sua boca masca incansavelmente condicionada ao estado de relaxamento vigilante donde se esquece até de si mesmo. Goma pra lá, goma pra cá. Goma pra cá, goma pra lá. Sobram às ruminações. O sabor... tuti-fruti? Menta? Morango? Tudo é névoa durante o ritmo insosso das mastigadas que o impele à disciplina do desespero.

questão cabulosa essa”! “A proposição é falsa? Não...verdadeira sempre. Ou será verdadeira para números maiores que 100000”? Carácolis!!!” O lápis quase fura o papel. E a língua força a massa grudenta na boca que, com um sopro apenas, forma uma bola fina, rosada e grande ao ponto de ocultar-lhe o rosto inteiro. Eis o X da questão! E o triunfo ao ver-se encontrar a solução de um problema difícil vem acompanhado de um sonoro Ploc!; tal qual um grito de eureca a coincidir com a morte daquela bola perfeita. Só então, por obra de uma não reconhecida superstição romântica, joga o chiclete fora, milimetricamente amassado na fenda situada na parte inferior do assento. Não sem antes se encolher ante à reunião dos gritos de reprimenda de seus colegas. Enquanto o professor pede silêncio, desembrulha o chiclete de canela e passa para a folha seguinte: prova de redação.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Borra de vida




Leu a sorte na borra de café e viu um castelo.

Viveu à espera de um príncipe e engoliu sapos.

Enfim só, matou-se de vez.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Morfina


À maneira romântica, um capítulo azul cujas margens aparecem ocultas sob uma miríade de rabiscos ficcionais. I love yous evocados por Bic’s coloridas. Corações, flores e folhas que, emanados de seu peito, extravasam a borda do papel.

Páginas de uma vida veementemente margarida. Até que no decurso das bem e mal querenças, a eloqüência do amor intenta calar-se no compasso de uma única pétala à espera de um juízo. Da cortina entreaberta, a chegada de uma realidade fria e ruidosa. À semelhança do sol poente, um véu cobria as ilusões encasteladas em sua casa de bonecas.

Mas, entorpecida, não percebe que tudo lhe dói. Ainda penso em você...Não é ridículo?

Olhando para as pétalas da flor estendidas ao chão, viu um mosaico de lembranças guardadas na circunferência de cada uma delas. As recordações cabiam todas ali, pois, nada do que viveram havia sido tão mirabolante ao ponto de julgar-se sobrenatural. Tudo fora simples, porém, de fôlego comprido. A piscadela tímida da paquera, os beijos que, sobretudo, emanavam humor, a mão brejeira afastando os cabelos que teimava em ocultar-lhe os olhos e o lago azul em que se transformavam quando nublados pela emoção. Lembranças simples, econômicas, virtuosas e que, por ela, mereciam um posfácio em edição especial.

Não vá embora. Não ainda, não agora. Toque aquela dos Beatles e fique junto a mim até que a música acabe”.

All you need is Love... (não vê?)
All you need is love…(Repita comigo!)
All you need is love, love (Compreende?)
Love is all you need… (Então, o que me diz?)

Mas, quando os Beatles se calam, a dor pousa na música seguinte. Do que lhe restou, a saudade incabível na circunferência de uma lágrima. Algum dia, talvez, suas lágrimas cobrissem de flores a terra morta de seu coração. Por ora, queria somente um campo de papoulas, céus e diamantes.

Toque aquela dos Beatles, por favor.

E todos sorriem enquanto Lucy é levada em meio à flores.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Aniversariar


Devia ter sabido.

Todo o dia traz o seu renascimento sem datas estandardizadas ou cálculos de calendário. Contado pela contextura emotiva dos anos, apenas.

Devia ter sabido.
Todo o dia tem sido o dia do parabéns compartilhado por imitação, da vela soprada prenunciando desejos de bom fôlego, do chantilly disfarçadamente afastado para as bordas do guardanapo, do texto implícito num abraço, das despedidas à meia porta e dos pratos sujos deixados para amanhã. Do passado eufórico e da ferrugem na fruta madura. Do desejo clandestino da alma animal e instintiva ao querer ter só para si.

Devia ter sabido.

Aniversariar é completar o circuito das memórias de nossa impermanência.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Mania Nacional


Dizem que foi de nascença. Antes mesmo que uma cacofonia de “que bicho é que deu nesse menino”? lhe chegasse aos ouvidos, Afrânio já era um ablutomaníaco. Viera ao mundo água e esfregão; prontamente apto a conjurar a sujeira da humanidade. “Que imundície é essa, meu Deus, que me traz tanta má sorte”?

Muitos anos depois, seus pais haviam de recordar o dia de seu batizado. Partículas de poeira adejavam o ar cumprindo uma trajetória titubeante até encontrar guarida no traje negro do reverendo. Tal visão bastou para que um Afrânio agitado soltasse um grito grosso e forte em protesto. O pastor, monocórdio, entoava a liturgia indiferente à oscilação irritada do bebê em seus braços. Não faltou quem considerasse a estranheza do comportamento do menino; e logo um burburinho poluiu o ar quando todos perceberam um splash profundo: Afrânio incontido se jogara em pose de mergulho dentro da pia batismal. Alheio a coreografia de persignações do reverendo, familiares e convivas, a criança interrompeu sua ablução, pele enrugada e lábios trêmulos, e inquiriu:

“Cadê o sabão”?

A mãe sincopizou sua frustração. O pai fez que não dava a mínima.

“È apenas uma maniazinha que passa, vê só. Para que tanto alarde? Maniazinha, pois sim. E das pequerruchas. Não tem massa suficiente para receber a investida da maledicência. Logo, logo toda a redondeza se esquecerá do incidente. E de tudo ficará o dito pelo o não dito, vê só”.

“Qual o quê!!! Viste a cara da Dona Ana? Ela se afiançará de que o mundo não esqueça o que se passou aqui. Vê só aí. A mania do menino foi até batizada. Agora já é gente. Vê só aí”.

“Tsc...é uma maniazinha, vê só. Um bebê em matéria maníaca. Tem lá sua energia mais simples, porém é gradualmente ínfima tal um piparote corriqueiro, vê só”.

“Eu quero ver é quando a mania sair da tal menoridade! Vê só aí”.

A despeito do horror do populacho e da preocupação de seus pais, a mania, em conformidade ao vaticínio materno, crescia em proporção maior à estatura de seu dono. E a cada dia expunham-se ardentes as camadas mais profundas de seu desejo atávico e incontinente de lavar-se.

Quando Afrânio se casou, a mania ganhou a força necessária para atravessar os rios, até então, indevassáveis do bom senso. Uma lua de mel de ritual e cansaço. Só para inaugurar o leito nupcial, muitos banhos sucessivos. Dez para garantir. Não obstante, causou-se verdadeiro espanto a chegada de Carina ao mundo.

Nos anos que se seguiriam, à Carina lhe seria inevitável sentir o cheiro de lavanda sem se lembrar-se dos desatinados lavatórios que o pai lhe fazia cumprir. Custaram-lhe muitas terapias até ter a noção de asseio como um privilégio íntimo, pois um Afrânio igualitário fazia questão de acumpliciar suas atividades particulares de limpeza. No paroxismo da mania, ainda lhe cheirava as mãos para farejar gradações de sujeira remanescente.

Embora se cercasse de estratégias variadas para evitar quaisquer danos possíveis à sua excentricidade, Afrânio não podia competir com o imprevisível. E quando esse último veio, trouxe consigo a certeza inelutável de que a mania alheia é sempre mais detestável. Principalmente, quando invade o espaço sacrossanto do outro dando aviso de si.

Numa tarde esplêndida Carina emporcalhou a fralda de fezes. Com a ausência da esposa, Afrânio respirou as entranhas. Uma certeza de calafrio borbulhou na superfície quando fez a filha curvar-se com o intuito de inspecionar-lhe o traseiro. Um esgar de nojo descompôs-lhe a face e o espírito à medida que uma veia bojuda e pulsante saltava-lhe da testa. Pernas bambas, foi em direção ao papel higiênico. A eletricidade do ar revolvia-se em colapso acompanhando a ação de suas mãos trêmulas. Munindo-se de algumas folhas, tratou de limpar uma banda e depois a outra do recuo empesteado de substância pastosa e malcheirosa.

Porém, a finura do papel pôs fim à imposição de seus cuidados ao se enganchar inclemente na comissura estreita dos glúteos. Um surto de arrepios gelou-lhe a espinha assim que uma trilha de fezes inundou-lhe os dedos em reprimenda a sua tentativa estabanada de lidar com a rebeldia daqueles fiapos de papel. Os olhos de descrença expurgaram-lhe a empáfia asséptica da cara deixando cair duas lágrimas furtivas sobre a mão enodoada. Uivos ininteligíveis, legítimos da derrota, lhe brotaram da garganta rompendo o silêncio expectante.

“ARGHAHAAIIMABAMSOPLUFT!!!!!”...

E saíram assim: sucessivos e ritmados. Reverberaram no banheiro e escorreram pelo ladrão. Avançaram porta afora tremelicando a tampa da panela jacente no fogão. Entoaram pelas ruas. Falaram pelas montanhas até chegarem a todo lugar:

“ARGHAHAAIIMABAMSOPLUFT!!!!!”...

E quando corpo de Afrânio acompanhou aquela sonoplastia estranha foi para contorcer-se ora letárgico ora espasmódico. Como a reproduzir um estrambólico padrão de dança cuja autenticidade logo inspirou os aplausos de Carina.

“Papai dançou! Papai dançou!”

Com o bumbum de fora e excrementos pingando pelas as pernas, Carina imitou a dança para horror do pai. E a partir desse episódio a mania de Carina deu por si. Só excretava ao som de tchams, créus e outros tantos onamatopéicos afins.

Vivi Bastos

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A quatro mãos



Crédito: Vivi Bastos


Ata-me suas mãos às minhas
e deixe que à nossa volta
as letras trançadas
editem nosso amor em itálico

Um beijo roçado e a capa tomara que caia
Outro, e a orelha emudece


Num vôo livre com asas de borboleta
— esplendor da carne própria! —
sorrimos um ao outro e, de mãos dadas
ponto
parágrafo

Entre a capa e a contracapa
um striptease lido na véspera

E as páginas desfolhadas ao vento
— frescura na face!
encarregam-se do happy end antes do fim

Bing Bang!
E de um encontro entre nuvens e pernas
eclodimos um universo completo
revisado e atualizado

No princípio
um bom livro
pão, queijo e vinho

Eu e você
na página 35