
Dizem que foi de nascença. Antes mesmo que uma cacofonia de “que bicho é que deu nesse menino”? lhe chegasse aos ouvidos, Afrânio já era um ablutomaníaco. Viera ao mundo água e esfregão; prontamente apto a conjurar a sujeira da humanidade. “Que imundície é essa, meu Deus, que me traz tanta má sorte”?
Muitos anos depois, seus pais haviam de recordar o dia de seu batizado. Partículas de poeira adejavam o ar cumprindo uma trajetória titubeante até encontrar guarida no traje negro do reverendo. Tal visão bastou para que um Afrânio agitado soltasse um grito grosso e forte em protesto. O pastor, monocórdio, entoava a liturgia indiferente à oscilação irritada do bebê em seus braços. Não faltou quem considerasse a estranheza do comportamento do menino; e logo um burburinho poluiu o ar quando todos perceberam um splash profundo: Afrânio incontido se jogara em pose de mergulho dentro da pia batismal. Alheio a coreografia de persignações do reverendo, familiares e convivas, a criança interrompeu sua ablução, pele enrugada e lábios trêmulos, e inquiriu:
“Cadê o sabão”?
A mãe sincopizou sua frustração. O pai fez que não dava a mínima.
“È apenas uma maniazinha que passa, vê só. Para que tanto alarde? Maniazinha, pois sim. E das pequerruchas. Não tem massa suficiente para receber a investida da maledicência. Logo, logo toda a redondeza se esquecerá do incidente. E de tudo ficará o dito pelo o não dito, vê só”.
“Qual o quê!!! Viste a cara da Dona Ana? Ela se afiançará de que o mundo não esqueça o que se passou aqui. Vê só aí. A mania do menino foi até batizada. Agora já é gente. Vê só aí”.
“Tsc...é uma maniazinha, vê só. Um bebê em matéria maníaca. Tem lá sua energia mais simples, porém é gradualmente ínfima tal um piparote corriqueiro, vê só”.
“Eu quero ver é quando a mania sair da tal menoridade! Vê só aí”.
A despeito do horror do populacho e da preocupação de seus pais, a mania, em conformidade ao vaticínio materno, crescia em proporção maior à estatura de seu dono. E a cada dia expunham-se ardentes as camadas mais profundas de seu desejo atávico e incontinente de lavar-se.
Quando Afrânio se casou, a mania ganhou a força necessária para atravessar os rios, até então, indevassáveis do bom senso. Uma lua de mel de ritual e cansaço. Só para inaugurar o leito nupcial, muitos banhos sucessivos. Dez para garantir. Não obstante, causou-se verdadeiro espanto a chegada de Carina ao mundo.
Nos anos que se seguiriam, à Carina lhe seria inevitável sentir o cheiro de lavanda sem se lembrar-se dos desatinados lavatórios que o pai lhe fazia cumprir. Custaram-lhe muitas terapias até ter a noção de asseio como um privilégio íntimo, pois um Afrânio igualitário fazia questão de acumpliciar suas atividades particulares de limpeza. No paroxismo da mania, ainda lhe cheirava as mãos para farejar gradações de sujeira remanescente.
Embora se cercasse de estratégias variadas para evitar quaisquer danos possíveis à sua excentricidade, Afrânio não podia competir com o imprevisível. E quando esse último veio, trouxe consigo a certeza inelutável de que a mania alheia é sempre mais detestável. Principalmente, quando invade o espaço sacrossanto do outro dando aviso de si.
Numa tarde esplêndida Carina emporcalhou a fralda de fezes. Com a ausência da esposa, Afrânio respirou as entranhas. Uma certeza de calafrio borbulhou na superfície quando fez a filha curvar-se com o intuito de inspecionar-lhe o traseiro. Um esgar de nojo descompôs-lhe a face e o espírito à medida que uma veia bojuda e pulsante saltava-lhe da testa. Pernas bambas, foi em direção ao papel higiênico. A eletricidade do ar revolvia-se em colapso acompanhando a ação de suas mãos trêmulas. Munindo-se de algumas folhas, tratou de limpar uma banda e depois a outra do recuo empesteado de substância pastosa e malcheirosa.
Porém, a finura do papel pôs fim à imposição de seus cuidados ao se enganchar inclemente na comissura estreita dos glúteos. Um surto de arrepios gelou-lhe a espinha assim que uma trilha de fezes inundou-lhe os dedos em reprimenda a sua tentativa estabanada de lidar com a rebeldia daqueles fiapos de papel. Os olhos de descrença expurgaram-lhe a empáfia asséptica da cara deixando cair duas lágrimas furtivas sobre a mão enodoada. Uivos ininteligíveis, legítimos da derrota, lhe brotaram da garganta rompendo o silêncio expectante.
“ARGHAHAAIIMABAMSOPLUFT!!!!!”...
E saíram assim: sucessivos e ritmados. Reverberaram no banheiro e escorreram pelo ladrão. Avançaram porta afora tremelicando a tampa da panela jacente no fogão. Entoaram pelas ruas. Falaram pelas montanhas até chegarem a todo lugar:
“ARGHAHAAIIMABAMSOPLUFT!!!!!”...
E quando corpo de Afrânio acompanhou aquela sonoplastia estranha foi para contorcer-se ora letárgico ora espasmódico. Como a reproduzir um estrambólico padrão de dança cuja autenticidade logo inspirou os aplausos de Carina.
“Papai dançou! Papai dançou!”
Com o bumbum de fora e excrementos pingando pelas as pernas, Carina imitou a dança para horror do pai. E a partir desse episódio a mania de Carina deu por si. Só excretava ao som de tchams, créus e outros tantos onamatopéicos afins.
Vivi Bastos